•Maio 19, 2009 • 1 Comentário

Quando o mundo acabou pela primeira vez, eu a vi ir embora sem querer olhar pra trás. Eu fiquei ali parada, lágrimas, fumaça e vazio. Tudo virou uma mescla de sentidos que deu num imenso vazio: eu era só mais uma pessoa sozinha em meio a todos os outros.

Eu andava pelas ruas de pedra, um cigarro entre os dedos. O carro ao longe e eu seguindo o rastro de luzes até não poder mais saber nem onde estava, nem o que queria. Ouvia no fone uma música igualmente triste, que tristeza que se preze há de ter o seu devido acorde. 

Ela foi embora.

Do amor

•Fevereiro 25, 2009 • 1 Comentário

E quando você vai, sempre deixa em mim o cheiro. Esse cheiro que eu preciso ter em mim, que eu procuro feito bicho pra reconhecer que é você, excluindo todo o resto, a minha causa e os meus efeitos.
Que a tua pele tocando a minha é a comprovação de que eu vivo. Que ganhar da tua boca os beijos é materializar o que não é palpável. Nosso amor se concretiza quando tocam em mim os teus lábios.
Que o mundo se desfaz imenso, quando, dentro do teu abraço, eu percebo que já não são necessários nenhum pára-raios. É no teu peito que eu encontro toda a paz do mundo.

Vírgulas

•Fevereiro 21, 2009 • 1 Comentário

Essas vírgulas, meu bem, mudaram o nosso rumo. Trocaram o doce pelo amargo e puseram nossos olhares à terceira margem. Acabaram com os risos e suspiros: deixaram só a mágoa.

A maçã e a serpente

•Janeiro 21, 2009 • 1 Comentário

Decidiu que não importava. Não ligava para os pedidos de deculpas e para a cara mal lavada do infeliz com quem dormia. Que, embora ainda sentisse amor e raiva, nada faria com que sua conduta mudasse. Iria embora, não mais voltaria, que voltar é para os fracos e desconsolados.

Depois, já quase em meio ao nada, achou que seria humano uma segunda chance. Voltaria. Perdoaria. Guardaria as mágoas numa sacola preta no fundo falso do armário das memórias. Recalcularia planos e sonhos. Dividiria as expectativas em prestações mais suaves desta vez.

Voltou, e viu já do portão umas flores novas e mais coloridas pela sala, sentiu um cheiro suave e doce que de bom entorpecia os sentidos cambaleantes de mulher que sonha. Vai ver ele pressentiu a volta. Arrependido quis pintar de cores boas a casa que guardava tanta neblina.

Entrando, ouviu na vitrola o disco reconciliação de todas as brigas. Mas ouviu também ao fundo uns gemidos de mulher trepadeira. Pela porta entreaberta do quarto, viu que ele nela já não pensava. Que fundia-se em outra com uma fúria apaixonada, dela desconhecida.

Com lágrimas nos olhos, picou com uma faca qualquer da cozinha, aquele corpo que carregava o coração que era dela, enquanto na vitrola o refrão gemia:

Mas quando você me abraça,

Tudo passa tão de repente.

Nesse caso, você é a mação, eu sou a serpente.

Metade

•Dezembro 9, 2008 • 3 Comentários

Do meu amor ela sabe nem metade.

Escrevi cartas que não entrego, porque as palavras terão sempre menos a dizer que os meus olhares.
Fiz versos pequenos demais pra tanta intensidade.

Do meu amor ela sempre saberá nem metade.