•Agosto 3, 2009 • Deixe um comentário

ela me veste de amor todos os dias.

faço dela minha segunda pele,

meu casaco de inverno, meu cachecol.

ela me despe de amor todas as noites.

deixa trilhas suas na minha pele,

faz de mim o seu lençol.

•Maio 19, 2009 • 1 Comentário

Quando o mundo acabou pela primeira vez, eu a vi ir embora sem querer olhar pra trás. Eu fiquei ali parada, lágrimas, fumaça e vazio. Tudo virou uma mescla de sentidos que deu num imenso vazio: eu era só mais uma pessoa sozinha em meio a todos os outros.

Eu andava pelas ruas de pedra, um cigarro entre os dedos. O carro ao longe e eu seguindo o rastro de luzes até não poder mais saber nem onde estava, nem o que queria. Ouvia no fone uma música igualmente triste, que tristeza que se preze há de ter o seu devido acorde. 

Ela foi embora.

Do amor

•Fevereiro 25, 2009 • 1 Comentário

E quando você vai, sempre deixa em mim o cheiro. Esse cheiro que eu preciso ter em mim, que eu procuro feito bicho pra reconhecer que é você, excluindo todo o resto, a minha causa e os meus efeitos.
Que a tua pele tocando a minha é a comprovação de que eu vivo. Que ganhar da tua boca os beijos é materializar o que não é palpável. Nosso amor se concretiza quando tocam em mim os teus lábios.
Que o mundo se desfaz imenso, quando, dentro do teu abraço, eu percebo que já não são necessários nenhum pára-raios. É no teu peito que eu encontro toda a paz do mundo.

Vírgulas

•Fevereiro 21, 2009 • 1 Comentário

Essas vírgulas, meu bem, mudaram o nosso rumo. Trocaram o doce pelo amargo e puseram nossos olhares à terceira margem. Acabaram com os risos e suspiros: deixaram só a mágoa.

A maçã e a serpente

•Janeiro 21, 2009 • 1 Comentário

Decidiu que não importava. Não ligava para os pedidos de deculpas e para a cara mal lavada do infeliz com quem dormia. Que, embora ainda sentisse amor e raiva, nada faria com que sua conduta mudasse. Iria embora, não mais voltaria, que voltar é para os fracos e desconsolados.

Depois, já quase em meio ao nada, achou que seria humano uma segunda chance. Voltaria. Perdoaria. Guardaria as mágoas numa sacola preta no fundo falso do armário das memórias. Recalcularia planos e sonhos. Dividiria as expectativas em prestações mais suaves desta vez.

Voltou, e viu já do portão umas flores novas e mais coloridas pela sala, sentiu um cheiro suave e doce que de bom entorpecia os sentidos cambaleantes de mulher que sonha. Vai ver ele pressentiu a volta. Arrependido quis pintar de cores boas a casa que guardava tanta neblina.

Entrando, ouviu na vitrola o disco reconciliação de todas as brigas. Mas ouviu também ao fundo uns gemidos de mulher trepadeira. Pela porta entreaberta do quarto, viu que ele nela já não pensava. Que fundia-se em outra com uma fúria apaixonada, dela desconhecida.

Com lágrimas nos olhos, picou com uma faca qualquer da cozinha, aquele corpo que carregava o coração que era dela, enquanto na vitrola o refrão gemia:

Mas quando você me abraça,

Tudo passa tão de repente.

Nesse caso, você é a mação, eu sou a serpente.