Do meu amor ela sabe nem metade.
Escrevi cartas que não entrego, porque as palavras terão sempre menos a dizer que os meus olhares.
Fiz versos pequenos demais pra tanta intensidade.
Do meu amor ela sempre saberá nem metade.

Do meu amor ela sabe nem metade.
Escrevi cartas que não entrego, porque as palavras terão sempre menos a dizer que os meus olhares.
Fiz versos pequenos demais pra tanta intensidade.
Do meu amor ela sempre saberá nem metade.
O problema não está em acordar, mas em acordar com o medo dos dias que virão depois. É saber que o mundo te aperta o pescoço e te coloca o peito em nó-de-marinheiro. Não há cinzeiro pra tanto cigarro, nem há asfalto que chegue pra levar onde se deve.
Não digam que tudo vai ficar bem. Eu sei que não fica. A vida toda é um eterno disparate. Eu sei muito bem que aquele Deus não existe.
Pregam pelos ares que vivemos pra encontrar felicidade. Acontece que viver é triste.
Foi poético: o sol iluminando a tarde, o vento despenteando os cabelos, uma música indiana beijando os ares, os passos no cortejo branco que acompanha o fim.
Uns poucos choravam. Quase todos, porém, miravam o chão contando as pedras, perdidos cada qual em seus pensamentos. Eu só conseguia pensar que aquilo tinha uma beleza inominada, e até imprópria.
Nas minhas lembranças ela era daquelas pessoas que já nascem velhas, mas que não mudam nunca a expressão fresca dos dias jovens. Ela tingia os cabelos compridos de preto e andava sempre de saias compridas – que é pra propagar a fé no deus inquisidor do pentateuco. Eu quis lembrar de mais alguma coisa, mas não há mais nada que lembrar.
As outras histórias que eu sei me foram contadas e já vieram contaminadas dos rancores alheios. Não são memórias minhas e, então, eu as deixo de lado. Me basta lembrar que o cabelo era tingido, que as saias não eram sinceras e que no peito daquele homenzinho triste de olhos azuis só havia espaço pra ela.
O homenzinho triste de olhos azuis viveu até ali o seu calvário romântico, carregou nos ombros 40 e tantos anos de tristeza conjugal, bebeu com a cachaça o amargo das traições, dormiu e acordou com as idas e vindas, cedeu, concedeu, perdoou.
Mas quando ela fechou os olhos, a agonia desesperada do amor único e impossível deu também seu último suspiro. Ele foi fiel ao que sentia, fez pra ela tudo o que podia. Ele amou como devia amar, ela machucou como não se deve fazer.
E ali, caminhando ao lado do meu tio triste de olhos azuis, eu percebi que não havia nele nada além da tristeza pura dos que sabem que fizeram tudo. Ele não estava vencido, não carregava mágoa no peito e nem trazia consigo o desespero.
O amor tinha dado um sopro de alívio, como se fosse o vento daquela tarde.
Foi poético, triste e belo.
15/10/1948 * 17/11/2008
Eu ando a quebrar uns copos cheios de raiva
me desfaço dos sonhos impróprios
e dos amores que não amam a nada
Eu ando a gritar um tanto demasiado
me fazendo surda para certas vozes,
eu fujo das luzes do teu caminho.
Eu, que sou feita em hipérbole, me perdi no teu eufemismo, não soube ler a tua subjetividade, nem entendi tuas palavras mudas.
Eu gosto é do soco que anuncia os intentos.