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[re] t r a t o s

26 de novembro de 2015

Por maior que seja o tempo, ele nunca é o bastante. Fica sempre uma aresta aberta, uns pratos em cima da mesa, umas roupas a secar no varal, contas a pagar, carinhos a receber. Aquela visita que eu fiquei de fazer nunca vai acontecer. Eu achei que não precisava correr, podia esperar passar o fim de semana, a folga na praia, a cerveja com os amigos. Eu achei que as manifestações de afeto não eram urgentes. Mas eram. E agora a ligação que eu não fiz no seu aniversário ainda está tocando aqui dentro.

Você não foi a melhor pessoa; a morte não te beatificou. Mas quem é que consegue ser melhor que as expectativas? Quem é que dobra as esquinas das mágoas pra desembocar num oásis de santidade? Não te foi possível unir o que era e sempre foi pedaços. Os seus vieram juntos pra mostrar o que é ser separado. São exemplo que não queremos seguir, mas aceitamos como um legado inegável. É da nossa estirpe ser triste, cinza e solitário.

 

 

Tanta tagarelice, um sem-fim de nada, caras, bocas e boçalidade. Eu também queria ser fútil: travar debates intermináveis sobre divas e produtos de beleza. Planejar viagens imaginárias para Paris e Nova Iorque. Mas é que a vida real lá fora é outra.

Lá fora, tem criança umbandista levando pedrada de fanático. Tem bandidos no Congresso trazendo a Idade Média pra hoje. Tem gente dizendo que minha família não é família. Tem hipócrita gritando pela moral, pelos bons costumes, falando de deus, mas agindo como satanás. Tem o preço da luz que está aumentando. Tem a água que está acabando. Tem o carro sem gasolina. Tem o pão que o diabo amassa a cada dia. Tem o condomínio que está sendo assaltado. Tem meus triglicerídeos. Meu colesterol. Meu coração.

Aí lembro do que o mestre Belchior falou: “E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza”. Mas como é que essa gente consegue deixar de coisa e cuidar da vida, tão futilmente, tão costurada de diálogos que saem do nada e chegam ao fundo daquele buraco que não tem fim?

Alguém aí, me ensina?

Cisco

Minha força não é verdadeira. Não serve sequer de armadura porque não amortece nenhum tapa. Sinto todos. Me ressinto dos olhares, dos suspiros, das perguntas sem resposta. Depois, é só dizer que não ligo, que ando melhor sozinho. E esconder as lágrimas, justificando-as um cisco.

A sensação de não pertencimento é sempre constante, me acompanha como um cão sarnento e faminto, não me deixa, como se fosse minha própria sombra.

Talvez isso seja apenas o resultado de uma vida de exclusões. Não me coloco como vítima ao me afirmar excluída, apenas constato um fato: quando dizem demais e em todo lugar que você não devia estar ali, a única coisa que resta é acreditar-se sempre fora de lugar.

Na escola, a menina estranha, pobre, gorda, parda e periférica aprendeu a andar sozinha na hora do recreio, a engolir sem revidar as provocações, a não ter com quem fazer trabalhos, a não ser escolhida para os times, a ouvir a piadas sobre o peso, a feiura, a pobreza.

Acho que desde sempre sabia que não encontraria apoio, abrigo, entendimento. Desde sempre intuí que a vida era mesmo por minha conta. E assim, uma hora você cria uma casca, uma capa, uma máscara. Eu não levo desaforo pra casa, eu ataco antes, eu não engulo sem antes cuspir de volta as misérias que a vida traz.  Mas isso não resolve o senso de ser sozinho.

Veja, não me digo sozinha no sentido de não ter pessoas por perto. Ao contrário, nunca falta com quem virar uns copos de cerveja. Acontece que as pessoas me dão nojo. Não consigo deixar de notar o machismo, o racismo, a hipocrisia em seus discursos, sempre tão impregnados de senso comum. É todo mundo sempre tão superficial.

E todos vencedores. E todos reis. Não há ninguém como eu que tenha se sentido verme pelo menos uma única vez na vida. Não há quem tenha lido Fernando Pessoa. Ou há os que leram sem o terem entendido, sentido.

A vida, na verdade, me aterroriza. Se eu fosse de verdade, não levantaria da cama. Desde o sorriso de bom-dia para o porteiro do prédio até as conversas de brodagem com as pessoas do trabalho, é tudo mentira. Não ligo pra nenhuma dessas pessoas, todas príncipes, todas vencedoras financiando suas viagens de férias pra Miami.

É todo mundo de mentira, no fim.

É preciso pintar o cotidiano com cores extraordinárias, antes que o cinza de todos os dias deixe a vida encardida, que se forme em impérios nas rugas da testa, que endureçam os olhos e formem barreiras aos ouvidos.

A felicidade de R$ 2,90

Uma mensagem brilhou na minha caixa de entrada. “Você quer dois motivos para ficar feliz?”.

Abri, pensando que talvez se tratasse da cura do câncer. Podia ser até menos; podia tratar-se da redução das tarifas do transporte público e o término das obras da Copa. Eu me contentaria se fosse uma mensagem de bom dia de um amigo distante, dizendo que sente saudade e que logo chega pra botar a conversa em dia.

Mas era tão-somente o submarino a me oferecer uma fritadeira elétrica e um pen-drive, cada um por R$ 2,90.

Aí preciso parar e escrever porque usando a linguagem do pensamento abstrato apenas não consigo entender que mundo é esse que oferece que oferece a felicidade em forma de fritadeira. Nunca me ocorreu que a felicidade passasse por um artigo dessa ordem. 

Os que não têm poesia dirão: a felicidade está no preço. Eu digo que no preço está armadilha! A felicidade é tão mal interpretada, coitada, que quaisquer 3 reais resolvem a coisa toda. Não importa quanto, nem o quê: importante é ter.

Seu sucesso na vida se mede pelas coisas que você tem. Não tem um carrão do ano? Não mora em um belo apê? Não viaja para Bariloche? Passa suas férias em casa cuidando das plantas? Fracassado! Não importa se para ter tudo isso, você precise morrer num emprego que você não suporta. Não importa se você não é feliz, de fato. O importante é parecer.

O importante, minha gente, é que felicidade cabe num pen-drive de R$ 2,90.

Senhor Raposa

– Enxuga estas lágrimas e põe-te em pé. Só os perdedores continuam no chão chorando! –, disse a raposa.

Levantei-me sem nem sequer pensar por que diabos uma raposa estava falando comigo. Mais: por que diabos é que uma raposa estava enfim falando. Às vezes, os absurdos do dia consistem apenas em não pensar nos absurdos.

Achei prudente perguntar à raposa, que parecia um daqueles seres inabaláveis com respostas para todos os problemas do mundo – a raposa era mesmo quase como o próprio Jesus Cristo, embora mais peludo –, o que fazer então da minha vida, já que por mais que tivesse levantado, meus joelhos doíam e sangravam.

– Pra onde devo ir, Dona Raposa? Até onde posso chegar com estes joelhos tão comidos pelas pedras?

– És mesmo uma besta, não? Sou raposa sim, mas não sou dona, não! Sou o Senhor Raposa! E não importa pra onde é que você vai, paspalho! Apenas comece a ir. Quando chegar, você vai saber que chegou.

Achei essa história toda um tanto enigmática demais e comecei a pensar que de Jesus Cristo aquele bicho não tinha nada. Cadê a compaixão pelos meus ferimentos? Mas confesso que o fato de ela ser ele, o Senhor Raposo, me deixou um pouco confuso. Ele tinha rímel nos olhos e os lábios traziam glitter, sim senhor.

– Obrigada, Senhor Raposa. Quando chegar, eu mando um telegrama, um SMS, um e-mail.

– Me mande apenas 100 reais, que estamos conversados.

No fim, a raposa tinha a ver sim com Jesus Cristo.

Verdade, uma ilusão

A verdade é que não há no mundo quem suporte a verdade.

Enquanto escrevo estas linhas cheias de mágoa, metade da população está contando mentiras. A outra metade está mentido que acredita nelas.

Ser verdadeiro é um defeito moral. Quem diz o que pensa acaba sempre andando sozinho.

A verdade é um exercício solitário, uma chaga exposta na pele.

– Não chegue perto dele, se não quiser se machucar. Vai acabar te atirando verdades na cara. –, diz o bom cristão.

E eu sigo só com as minhas verdades. Eu não sou mesmo de companhia.

Calina

Nunca mostrava os braços, o pescoço, as pernas. Jamais a vi usar outra coisa que não fosse a combinação saia até os pés e camisa fechada da gola aos punhos.

Na sexta-feira, quando o sol se punha, trancava-se no quartinho dos fundos – onde fizera o mundo nos últimos meses (seriam anos?) – e entoava louvores ao seu deus. Amava esse deus, como talvez nunca tenha amado mais ninguém.

O amor de deus, porém, não lhe tirava a rudeza da face, o sofrimento marcado nas linhas que circulavam o rosto e desciam como o curso de um rio pelas bochechas, dos sulcos que emolduravam a boca. O amor não lhe poupou do hospital, da cama, da miséria, da falta de tudo.

O amor de deus não a fez feliz. Era uma pessoa com as fraturas sempre expostas, congelada de mágoas.

Sinto falta dos olhos – tristes, sempre tristes em seu azul-claro –, sinto falta das histórias que não ouvi ela contar. Porque não deu tempo, porque eu não quis, porque eu não entendia. Sinto falta das mãos calejadas, das discussões que poderiam ter sido, das opiniões que me seriam contrárias.

Sinto falta de tudo o que era. Mas sinto muito mais por tudo o que não foi.

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