.amar a ti.

.às vezes te odeio e penso em sangue escorrendo pelos dedos. os teus, claro.
e penso que seria melhor se não houvesse nas minhas manhãs nenhuma menção aos olhos teus ou à tua voz. se não tivesse bem ali, ao lado das minhas, as tua roupas, não estaria agora vestindo esse teu casaco pesado e cheio de dúvidas. nem tuas botas calçariam agora os meus pés tão incertos de caminhos.
mas te odeio apenas por um segundo e tudo o que penso se passa num fluxo de consciência que me joga tonta à cadeira. cigarro e cranberries nos ouvidos para voltar à realidade de amar.
e amar a ti.

.redemoinho.

.vê que se apaga o olhar
e não tem pra onde voltar
sem saber que o mundo não pára

derruba as coisas no chão
quebra os vidros e rola os cinzeiros
todos cinzas, cinzas pelo vento

redemoinho de noite sem cor
de vida sem sol
de olhar sem amor.

.beijos de menta.

.eu achava que quando encontrasse o amor, minha vida seria como um filme europeu em que os casais apaixonados passeiam pelos cafés e museus, enrolados em cachecóis e falando horas sobre coisas tão envolventes que não cessavam de argumentos entrecortados por beijos de menta e tragadas em cigarros. e iríamos para casa, e transaríamos a noite toda como loucos selvagens, dormiríamos depois abraçadinhos, e de manhã um dos dois traria o café na cama para o outro.
mas quando eu encontrei o amor, bastaram o silêncio dos olhos e os gritos dos beijos para que eu soubesse que toda idealização é herança romântica que não se realiza.

.vitoriana.

.os livros espalhados pela casa nunca foram lidos, nem os lápis de cor coloriram qualquer papel. a vida ali era dotada de um cinza fantasmagórico saído das fotografias vitorianas que lembravam os contos de Poe.
não era só tristeza, era vazio também. ou talvez fosse triste por ser vazio. o que seria a mesma coisa…
confusão: esta é a palavra que define o estado em que a mente de quem passa por aquela casa fica. impossível perceber qualquer migalha que lembre afeto, qualquer traço com cheiro de riso.

.a song.

enquanto você diz
coisas que não vão acontecer
da janela eu vejo
o sol desaparecer

tão perto daqui
e tão longe de você
vejo nos teus olhos
o que me faz sofrer

eu vi tuas mentiras
caindo pelo chão
e eu acordei
banhada em ilusão

minha voz então sumiu
abri a boca sem gritar
eu trago no peito
a máquina de apanhar