.come chocolates, menina.

Hoje decidi que vou mesmo é comer chocolates como se fosse ainda criança e tivesse a inocência de não saber.

Porque se você sabe, a consciência impede de viver as coisas mais simples sem culpa, sem saber que tudo é efêmero e que vai acabar antes que se possa dar conta disso.

As pessoas são más, é verdade. Fedem, apodrecem vivas e morrem. Mas não se dão conta disso, se acham assim muito importantes e relevantes, se pensam todos inatingíveis e imortais. Por isso são más e prepotentes.

Mas eu vou mesmo é comer meus chocolates, acender um cigarro e rumar sempre adiante, levando o peso dos meus pensamentos e o sorriso irônico de quem sabe que eles são mesmo uns idiotas.

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.os que andam de branco.

Acordou num quarto de paredes muito brancas e com uma janela aberta que deixava o ar gelado de uma manhã muito fria entrar. Embora o sol já brilhasse há duas horas, o vento cortava a pele como se fosse uma rajada de mil lâminas volantes.

Não sabia ao certo há quanto tempo estava lá. Era muito tempo. E cada despertar vinha como se fosse o primeiro. Abrir os olhos e ver aquelas paredes nuas de tudo trazia ainda mais tristeza àquela mente também despida de memória.

Levantou-se e caminhou até a janela. Lá fora, um gramando imenso se estendia até a grade que separava aquele mundo da calçada por onde passam os que não andam de branco.
O olhar sem brilho de olhos parados que miram sem ver acompanhou, milagrosamente, o vôo bailado de uma borboleta branca. As correntes de vento pareciam não ter nenhum impacto sobre a sua coreogafia e, lentamente, ela vinha se aproximando da janela.

Se pudesse voar como aquela flor de asas…olhar de cima aquele jardim vazio de cores e chegar até a calçada…acompanhar os rostos que passam no bailado das mesmas asas daquele buquê branco…pousaria no ombro dos que mostram nos olhos alguma doçura e iria com eles aonde fossem, virando um anjo-da-guarda colorido de asas delicadas.

Quando despertou daquele sonho acordado, sentiu que a borboleta batia suave as asas, pousada no seu ombro.

.on the bus.

Entrou no ônibus e procurou logo um assento à janela. Não havia nenhum. A viagem era longa e passar assim tantos minutos sem poder olhar a paisagem da cinza cidade deixou sua aura um pouco mais apagada.
Sem poder viajar nos contornos arquitetônicos dos prédios, sem um livro qualquer para arrancar-lhe daquela tortura, começou a reparar nos passageiros ao redor.
Todos com o mesmo olhar meio perdido, meio esperançoso. Algumas pessoas conversavam e riam, contavam histórias, mas ainda assim o olhar trazia qualquer coisa de angústia gritante.

.without you.

agora o frio está mais intenso
agora não sinto mais teu cheiro pela sala
agora o Sol não passa de uma imagem
surreal, derretendo junto ao céu,
e os pingos que caem no chão
botam fogo na Terra
mas agora o frio está mais intenso
porque não tenho mais você