.mágoa.

Ela chegou e parou na porta. Acendeu um cigarro e ficou com o olhar como que se esperasse uma outra coisa que não o meu total silêncio.
Já faz quase um ano. Brigamos e nunca mais nos vimos, às vezes umas tentativas de diálogos que encerravam no “tô bem, e vc?”.
É comum achar que as amizades são mais puras ou menos efêmeras que as paixões. Mas quando um sente mais carinho que o outro, igualzinho às paixões, o outro tende a sair machucado de alguma forma.
O fato é que ela estava ali parada na minha porta, com o mesmo ar desprotegido de sempre, e eu sou sentimental demais para ignorar esse fato. Acendi também um cigarro, e passei por ela, indo para fora.
Sentei exatamente no mesmo lugar na calçada em que passamos horas incontáveis olhando o céu, a rua, e falando de tudo.
Talvez ela tenha achado que esse gesto significasse o enterro daquela briga, talvez eu quisesse mesmo enterrar. Mas quando ela sentou ao meu lado e tentou pedir mais uma vez desculpas por tudo o que aconteceu, o sentimentalismo ficou de fora.
A mágoa dominou todas as minha palavras. Falei coisas construídas em ironia, cada frase soando como um tapa na consciência dela.
Ela foi embora, não aguentou os tiros de mágoa que lancei. E enquanto ela ia caminhando em direção ao outro lado da rua, cabeça baixa e mãos no bolso, eu sentia o peito ficando mais vazio.
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.gelo em curitiba.

.caíram pedrinhas de gelo do céu de curitiba, pintando de branco o cinza do asfalto e deixando no fim da tarde uma estranha alegria.
os guris fizeram guerra de punhados de pedrinhas de gelo, correram e sorriram sem saber ao certo o porquê.
eu sei: presente do céu, ainda que seja frio e meio violento, traz o deus-menino pra mais perto dos meninos-deuses.

.sobre heranças e casacos.

.a casa, enfim, vendida para que cada filho devore a parte que lhe cabe na maldita partilha.

na manhã em que os móveis seriam tirados de lá, consegui, como que por milagre, ficar sozinha no quarto onde ela dormiu durante os últimos 57 anos. a colcha de retalhos em cima da cama, a penteadeira de espelho embaçado e com ondulações que deformaram meu rosto ao tentar encarar-me nele, os perfumes enfileirados, uma Bíblia aberta num Salmo que eu não sei mais qual era, um rosário na parede. coisas que pareciam impregnadas de tristeza e do peso dos anos. tudo parecia estar coberto por um espessa camada de poeira, uma poeira eterna.

abri o armário das roupinhas sempre sóbrias.O casaquinho marrom que ela gostava de usar aos domingos enquanto fazia o almoço. acho que nunca a vi com outro casaco em domingo nenhum dos meus anos. calças de veludo azul, marrom e bege. sobriedade era o lema. no último cabide, um casaco de lã xadrez. tão lindo, tão absurdamente atual.

tive medo, receio ou qualquer coisa do tipo. o peito feito em nó e a garganta quase fechada, tirei o casaco do cabide e encostei-o assim por cima do peito. mirei no espelho, parecia ter sido feito para mim. Vesti, abotoei, ajeitei a gola. O nó do peito desfez-se e a poeira do quarto foi baixando.
vestida com o casaco sinto como se ganhasse um abraço contínuo dos cabelinhos em neve que me amava tanto.

o abraço no casaco é a parte que me cabe.

.a menina e Álvaro de Campos.

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Por que essa obsessão em saber sempre os meus quereres? O que quero da vida, o que quero do mundo, o que quero de mim? Não quero nada além de ser. Basta? Não! Há de se querer sempre o além. E há de se prestar sempre contas do ser ao mundo.
Abaixo os olhos, encolho os ombros e, num suspiro, digo:

Não: Não quero nada.

Por que haveria de querer, se querer é ilusão, sonho e festival de devaneios? Se só há uma conclusão para todo ar que é respirado, para todo ser que vive, para tudo que nasce, por que querer?

A única conclusão é morrer.

E se morremos todos, com que direito tentam aniquilar o que sou? Com ordem de quem ficam a importunar meus ouvidos com perguntas sobre a minha vida, sobre meus amores, sobre meus caminhos? Que direito têm vocês de impor a mim a sua “civilização”?

Se têm a verdade, guardem-a!

E não queiram fazer de mim uma outra pessoa. Não esperem de mim que agrade a todos, que mate o meu eu para que tenham vocês sorrisos pálidos nos rostos gordos.

Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Vão para o diabo sem mim.

Porque neste mundo de iguais, neste sistema de falsidades, neste sem-fim de conveniências, eu quero estar sozinho!

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

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Em itálico, trechos do poema Lisbon revisited (1923), de Álvaro de Campos – heterônimo de Fernando Pessoa.

.sub.

tem um mundo embaixo da minha cama quando fecho os olhos e sinto o corpo como se caísse em um abismo. a queda, porém, não é bruta. é leve, como se minha matéria fosse pluma e brotasse das costas um par de asas como um anjo ruivo. no mundo subcama sou rei, princesa e bobo da corte. tomo vinho em taças de cólera e me deito nos braços de mulheres falsas que me dão amor em troca de uns versos. no mundo subcama sou eu maior.