.prece a um deus.

O paraíso, Senhor, não sei onde fica. Mas gasto umas horas pensando que ele bem poderia ser assim feito uma biblioteca sem fim, sabe, Senhor?

Se for pra ter vida após essa morte aqui, porque é sabido, Senhor, que na terra o homem anda mesmo quase como se fosse morto, é zumbi da própria vida, então que seja uma vida de deleite.

Coloque lá o Pessoa, e todos os poetas que reinavam dentro dele, sim, porque aí ao menos sei que terei prazeres garantidos por tempos que se esgotam em ponteiros. Traga lá da Grécia, Senhor, a gênese de tudo o que é arte feita em ofício de escrita.

Deixe que todos leiam as tragédias e comédias, que saibam do inferno como ele é, que vejam o retrato da maldade e da pureza, que descubram um certo Shakespeare, que amem [ou odeiem] um Saramago, que sintam o gosto do ciúme com Machado.

Semeie lá, Senhor, toda a vã filosofia que te nega, e revele os evangelhos escondidos por aqueles que se denunciam com o cheiro de enxofre.

No paraíso, Senhor, se ele existir, instale nas nuvens os mais potentes alto-falantes para que todos alcancem o êxtase ouvindo o perfeito Ludwig Van.

E tire o sono dos olhos de quem lá possa estar, Senhor, para que a semimorte não mais os tire do gozo de estar ali, e para que possam ler tudo o que de bom existe.

E lembre-te de mim, Senhor, tão incrédulo e imperfeito, para que desse paraíso eu seja ao menos o limpador dos livros.

.queda.

.sentada à janela no ônibus de volta pra casa, ela via as casas e o asfalto cada vez mais longe, sempre no horizonte como se fossem um oásis de concreto.
o vento que faz o cabelo balançar acaba fazendo com que respire um ar nauseante, e ela sente que o corpo fica cada vez mais denso, pesado, e cai como se fosse um embrulho malamarrado, como se fosse um poste que, embora imponente e forte, não resiste à furia de uma ventania.
tudo o que ela não é está ali, jogado ao chão. mas ela é feliz porque não vê os olhares enojados e assustados dos outros, que também não são ninguém.

Oscar Wilde e Dorian Gray

Um rapaz belíssimo da alta sociedade é retratado por um amigo pintor. Ao ver a pintura, o rapaz tem o desejo de ser jovem eternamente.
Seu desejo é atendido e, com o correr do tempo, quem envelhece é a pintura. Ao mesmo tempo em que continua belo e angelical, o rapaz se torna egoísta, devasso e mau.

É essa a trama que Oscar Wilde desenvolve em O Retrato de Dorian Gray. Um clássico da literatura inglesa e mundial, O Retrato… é também um tratado sobre a vaidade e os vícios, egoísmo e virtude.

Leia O Retrato de Dorian Gray já!

Sobre Oscar Wilde

Oscar Wilde é um dos maiores escritores de toda a humanidade. Sim, sim. Sou dada a exaltações afetusosas, movidas a emoção. Sou quase uma chefe de torcida de Oscar Wilde.
Irlandês, Wilde abalou a sociedade mesquinha e apequenada do século XIX com sua conduta nada politicamente correta para aqueles padrões. Genial desde a infância, mantinha uma postura superior na escola, nariz empinado mesmo. Ele podia!
Participava ativamente do círculo intelectual-literário dos Estados Unidos e da Europa, especialmente de Paris. Na Inglaterra, casou-se e teve dois filhos. Mas também teve um amante, um jovem cujo amor acabou por levá-lo à prisão. Sobre este episódio, Wilde diz:

“O amor que não ousa dizer o nome’ nesse século é a grande afeição de um homem mais velho por um homem mais jovem como aquela que houve entre Davi e Jonatas, é aquele amor que Platão tornou a base de sua filosofia, é o amor que você pode achar nos sonetos de Michelangelo e Shakespeare. É aquela afeição profunda, espiritual que é tão pura quanto perfeita. Ele dita e preenche grandes obras de arte como as de Shakespeare e Michelangelo, e aquelas minhas duas cartas, tal como são. Esse amor é mal entendido nesse século, tão mal entendido que pode ser descrito como o `Amor que não ousa dizer o nome’ e por causa disso estou onde estou agora. Ele é bonito, é bom, é a mais nobre forma de afeição. Não há nada que não seja natural nele. Ele é intelectual e repetidamente existe entre um homem mais velho e um homem mais novo, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o brilho da vida à sua frente. Que as coisas deveriam ser assim o mundo não entende. O mundo zomba desse amor e às vezes expõe alguém ao ridículo por causa dele.”

Ao sair da prisão, sua vida vira uma espiral de decadência – financeira – e ele morre sozinho em um quarto de hotel barato de Paris, em 1900, aos 46 anos.

Para baixar: Oscar Wilde Biografia e Obra