.como se perdem os anjos.

se esbarraram um dia no meio de uma multidão de rostos que olham pra lugar que ninguém sabe onde.

se quiseram instituídos em contrato de convenção social. Namoro “vamos-ver-no-que-dá” até que o peito começou a ficar pequeno pra tudo aquilo que crescia sem aviso nem pedido.

se amaram como deve ser todo amor que se preze, com ondas de paixão explodindo logo depois dos períodos de calma quase fria. Mas se amaram.

se brigaram porque um é esquisito e o outro é estranho, porque um é pegajoso e o outro é calculista, porque um é mentiroso e o outro é descrente.

se odiaram por se terem conhecido, perderam a fé no erro de terem namorado e lembraram dos dias em que tinham se amado.

se perderam como às vezes se perde uma nota de cem no casaco preferido.

me deixa sentar em qualquer canto

remoer meu silêncio em gritos

dizendo não aos dias negros

e vazios de você

 

me deixa esconder o rosto

por entre as mãos

esperando ouvir teus passos

atrás da porta

e tua voz dizendo

que é preciso ter força

que o tempo corre

e que vai estar aqui

 

desconstruindo o peito com os “toranja”

Toranja – Musica De Filme

Tiago Bettencourt 

 

Dentro de mim…

Por dentro de mim…

É pena quase não poder ficar…

És quente quando a luz te traz…

Quase te vi amor…

Quase nasci sem ti…

Quase morri dentro de mim…

Ficas dentro de mim…

Por dentro de mim…

Estás dentro de mim…

 

Silêncio, lua, casa, chão…

És sítio onde as mãos se dão…

Quase larguei a dor…

Quase perdi…

Quase morri dentro de mim…

Estás dentro de mim…

Por dentro de mim…

Ficas dentro de mim…

 

Sempre sou mais um homem, mais humano, mais um fraco

Sempre sou mais um braço, mais um corpo, mais um grito

 

Sempre… Dança em mim!

Mundo, vida e fim…

Dorme aqui, dentro de mim…

 

É pena quase não poder ficar

No sítio onde as mãos se dão…

Quase fugi amor, quase não vi…

Vamos embora daqui para dentro de mim

 

.cinzas.

.hoje eu abro os olhos fixos no teto branco que me viu nos dias
de euforia
eu pintava as paredes e recortava rostos desconhecidos em
revistas que roubava por aí e enchia de som todo o quarto pra ver o sol
iluminar o livro aberto na mesinha lá do canto: “se o cego não vê a fumaça e não fuma,
ó Deus, enterra-me no olho a tua agulha de fogo”, diz o vampiro de Curitiba. depois
vestia a calça jeans bem rasgada, metia o all star nos pés e saía com a mochila nas costas e os
sonhos transbordando no peito. eu era feliz, e sorria.
hoje abro os olhos fixos nas paredes que invadem o teto branco e ficam brancas como se nunca tivessem
feito qualquer sentido. a mochila agora mora ali no canto e eu não saio mais pra parte alguma. estendo os braços
e pego um maço do cigarro mais barato, acendo ali mesmo na cama e vejo que tem tanta cinza pelo chão que é quase como
uma ilha a minha cama. a janela não fica mais aberta e nenhum raio de sol ilumina qualquer livro. lembro palavra por palavra
todos os poemas que fiz pra você e sinto ainda o gosto do amor que tinha na ponta dos dedos e da língua.
mas faço das minhas memórias uma fogueira, queimo também as cartas em que mentia amor e saudade. não há saudade em ir embora, fechar portas
e arrastar as malas. não há amor em ser mesquinho.
então as cinzas não são só do meu cigarro barato, mas o nosso passado feito em fumaça e nada.