.aos que não se vendem.

sei lá como posso ser tão cotidiano e burocrático nesse mundo de escravos
do próprio não-ser.
sei lá como cumprir 10horas de um trabalho bandido, pregado em uma cadeira
e bombardeado pelas pressões capitalistas do lucro a qualquer preço.
ah, como tortura a ânsia de saber e a incapacidade de sorrir ao “pão e circo” que
me é oferecido.
eu não quero morrer de ataque cardíaco aos 34 anos, nem ter um derrame cerebral
aos 26.
eu quero é ter tempo para sentar num banco da XV e olhar os rostos e ver o Sol e ver
a noite e sentir um pouco de paz.
felizes os que não se vendem! felizes os que não se deixam ir à abate. Felizes eles e
suas pulseirinhas e brincos e seus pés descalços de prisão e suas horas livres de relógios.
aos que não se vendem, a minha mais pura inveja!

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08/10/2007

toda vez é isso: você encolhe os ombros, mete as mãos nos bolsos, olha um ponto
qualquer no chão e diz que precisa de tempo, que precisa mais é reescrever certas
partes da vida.
talvez nem tenha amanhã e não tenha quem tire os seus lixos do cesto.
vai ficar tudo ali eternamente amontoado. os papéis todos amassados,
fazendo como um mosaico de letra distorcida, criando novo sentido nas
palavras que nem foram escritas.
é melhor não deixar nem sequer uma gota do café na tua caneca. sabe como é,
os bichos podem infestar a casa. levanta daí, leva a louça pra pia. larga esse
mundo de sentimentalismo e suposições e vive o agora.
já disse, talvez nem tenha amanhã.

.felicidade.

Vivi, estudei, amei e até cri,

E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. *

Acordou cedo, como todos os outros dias. Tomou o banho rápido e mecânico. Vestiu as mesmas roupas sociáveis que lhe cortavam a alma. Engoliu sem vontade uma xícara de café com leite. Pão não comeu, e isso era novo. O feitor, amarrado ao pulso, acusou as horas que não param. Saiu ausente e vazio em direção ao ponto de ônibus.

Queria ser médico uma vez, aí desistiu porque não podia ver sangue. Queria ser escritor, pintor, professor ou qualquer coisa humana. Não sei se por falta de competência ou de sorte, acabou virando só mais uma peça de uma organização manipuladora e exploradora que enlouquecia os funcionários com discursos proféticos de auto-ajuda. Os funcionários ali eram bem como as crianças do clipe do Pink Floyd.

Estava profundamente infeliz. Ter uma mente pensante em meio ao caos é uma espécie de maldição. Não se pode ser feliz quando se tem consciência de ser explorado. Não há como sufocar os princípios por muito tempo impunemente. A loucura vem, e é violenta.

Ao chegar à fila de espera do ônibus, olhou pro rosto de cada um daqueles escravos. Uns serenos, conformados, outros felizes. Ele não, ele estava morrendo a cada passo que dava em direção ao enriquecimento do patrão.

O ônibus chegou, a fila andou, e por um momento ele até acompanhou inconscientemente o ritmo. Mas se viu como se despertado de um transe, um tanto angustiado, caminhando feito bicho pro abate. Arrancou o relógio do pulso, tirou a camisa de dentro da calça, despenteou o cabelo e andou apressado de volta à casa.

No quarto, leu Pessoa e Machado. Escreveu uma carta para a mãe. Colocou uns discos e umas roupas na mochila. Foi-se embora levando na mão direita um volume de papéis com a obra completa de Virginia Woolf.

Pela primeira vez foi feliz.

*Álvaro de Campos in Tabacaria