.o livro dos dias.

O que tem, meu Deus, dentro destes livros todos aí largados na estante do quarto daquele homem? Eu não sei se é o que ele lê ou se ele faz uso de drogas pra poder falar sobre tudo e tão cheio de propriedade.

Ele deitado na cama, o cigarro entre os dedos, falando sobre Cuba e Fidel. Sem paixão, sem pensamentos de extremo conservadorismo capitalista, sendo tão-somente sensato. E eu, deitada ao seu lado, num quase arrebatamento, babava em cada uma das palavras que ele dizia.

Outro dia, ele ficou horas me dizendo coisas sobre a Inglaterra vitoriana. Tão forte, tão intenso, me senti sem ar até, vi as paredes ficando cinzas, cheguei a enfiar o dedo entre a garganta e a gola da camiseta da Janis que eu vestia, tanto que ele falava com verdade. Nesse dia, fomos dormir às sete da manhã, esgotados de tanta conversa e cigarro.

Eu estava hipnotizada, ele não era do tipo que fazia as mulheres suspirarem, rastejarem, não atraía olhares nas ruas, mas se tornava um deus quando falava. Especialmente quando falava só pra mim.

Uma tarde fiquei sozinha, ele precisava ir até a cidade pra se aborrecer com as máquinas financeiras. Não quis ir, fiquei trabalhando nas fotos da banda. Mas era como se um imã chamasse minha atenção e me fizesse desviar os olhos do computador pra contemplar aqueles livros, aquela estante.

Me dei por vencida, larguei as fotos e caminhei até a estante. Fiquei parada em frente aos livros por uns instantes, correndo os olhos pelos títulos. Não conhecia nenhum daqueles livros. Nenhuma obra familiar, nenhum autor. Puxei um volume de capa dura vermelha. Na capa o título em letras brancas, “O livro dos dias”. Abri numa página qualquer. Estava em branco. Virei a página, nada. Tudo estava em branco.

Peguei outro livro, outro, depois outro, mais outro. Todos estavam em branco. Não havia sequer uma frase em qualquer um daqueles volumes.