.correspondência.

Sei lá, cara. Tenho me sentido meio…sabe? Agora eu sento aqui e fico horas olhando o povo andando lá embaixo. Todo mundo correndo, né? Dá saudade. Ás vezes, choro. Mas aí acendo um e acabo secando as lagriminhas. O foda é à noite, sabe? Quando fica tudo escuro, quase ninguém lá embaixo. Silêncio em tudo que é lado. Nem como, não dá fome. Às vezes rola uma caneca de café, aquela grandona que tu me deu, lembra?

Sabe que outro dia eu pirei? Peguei o telefone e disquei o número. Sabia que não ia atender, era só ver que era eu e, pronto, ignorava. Mas sabe quando você tá tão machucado, que já nem liga mais de se machucar de volta? Parece que meio que anestesia tudo. Até o cérebro.

Tava pensando em me livrar das lembranças todas, jogar tudo no lixo, porque tu sabe como aqui tudo tem aquelas marcas. E eu não posso mais olhar aquela estante cheia dos livros que ficaram abandonados, nem esse maldito disco que não sai mais da minha vitrola.

Tu podia vir, né? Tava bem que precisando de um olhar amigo e de um abraço forte agora. Eu compro cigarro preto pra ti, seu mercenário. Traz o violão que a gente acaba até fazendo umas letras novas.

E quem sabe, eu até volte a sorrir, por ti.

 

 

2007

Nas tardes em que, ainda que brilhe um sol dourado no alto do céu, o peito se encolhe de tristeza  e mágoa. A casa toda aberta e os sons da rua não arrancam nenhum sorriso dos lábios grudados.

Caminhar por entre os móveis e as coisas todas mortas, tirar o pó de cima das caixas esquecidas no fundo do armário: tudo é lágrima que cai e não amolece nem o peito nem a dor.

.sobre bondade e demônios.

desconfio de gente boazinha. é bem verdade que
desconfio de todo ser que respire, mas dos bonzinhos
tenho um receio especial.
não há como confiar em gente que não revida os desacatos,
que sempre abaixa os olhos e aceita a vida como ela é sem
sequer soltar um “puta-que-pariu”.
porque quem tem ataques de raiva, dissolve o ódio nas palavras
que diz, e pronto. não cria demônios no peito.

.as frases são minhas, as verdades são tuas.

De ti herdei o gosto pela Hilda, um cd do Zeca – o Baleiro – e o orgulho da loucura.
De ti amei as noites bêbadas, o riso surdo e as palavras-universo.
De ti ainda lembro do ardor que era a avenida às seis da tarde: nosso ópio era a provocação explícita à ordem.
De ti vejo a saia quase nula e o alvoroço daquela noite em que a Terra fez-se inferno – o mundo mudou, depois de sugada a língua.

Hoje tomei umas taças de vinho enquanto o Zeca cantava e senti o gosto amargo do que é saudade, do que é não saber mais de ti as mentiras, não correr mais pela madrugada atrás de sonhos, não ouvir mais os teus delírios.

O teu rosto sempre foi muito forte, mas os teus olhos eram os mais tristes e, mesmo quando você sorria, só eu via, havia ali nas pupilas um grito desesperado por socorro.

Sempre achei que em ti havia um gosto de García Márquez: de ti eu sabia o passado, mas nada nunca rumou para um futuro.

E hoje eu descobri: há amor em mim pra ti.

.alta noite.

A madrugada não me deixa dormir. Noite é, só não há sono capaz de me fechar os olhos e apertar o pause do teatro da minha mente.

 

A madrugada enche de silêncio os quartos e só o que se ouve são os meus passos mudos buscando na cozinha mais uma xícara de chá.

 

Leio, escrevo, penso e fumo.

 

A madrugada não separa do dia quase nada, só o Sol que me obriga a usar uns óculos escuros.