Para o 15 de outubro

Eu já nem sei há quanto tempo ela veio trazendo os pincéis vermelhos pra tingir o meu céu cinza e foram fazendo dos meus rocks uns sambas pra girar na renda.

E de tanta fumaça e riso e lágrima e coisas feias ditas sem querer machucar e fones em bossas nas escadarias e trilhas daquela ruína e livros não lidos ao som de cartola, gastou-se o tempo em que se queria mais daquele vermelho na carne.

Ficou o ver a menina na pista de longe tão cheia dos rock’s que um dia eram sós meus, ficou o desejo de abraçar sem ser no inverno, sem precisar dos cachecóis, sem idealizar o que não se pode pretender. Ficou o querer dela não só os sorrisos calmos e um tanto tímidos, mas também as raivas que fazem reagir e “andar em frente pra sentir vontade”. Ficou a graça de ver ela reclamando a semelhança tão idêntica à Mallu – o que é um espanto porque a Mallu é tão linda em tudo -, a vergonha vegonhenta quando a gente diz que ouve certas músicas cantadas na voz dela, que carrega a voz no peito do MP3 e nos cd’s espalhados pelo quarto tão confuso quanto aquilo que contém.

Ficou essa vontade de escrever um texto pós-aniversário já que ela agora tem 21 e os meus planos do 15 falharam bravamente na crise da folha em branco.

Ficou esse amor que não acaba, porque nem todo carnaval tem seu fim.

Pára com este rock!

Já que tu não responde quando eu chamo, nem se importa com este meu pranto, apago as luzes e fecho a porta. Pego meu rumo, me encosto neste meu canto em que não há canto que clareie o escuro do peito.

Eu levo os restos do que ainda era bom, pra ver se a vida sabe não esquecer do que valeu a pena, mas “as brigas que perdi, estas sim, eu nunca esqueci”. Takai e Ulhoa são filósofos dos dias modernos, dos que empunham a dor num porta-estandarte.

Dor é mais que alívio de culpas. O trágico deixa mais marcas que as noites felizes, e esta camisa tua largada aqui no meio da sala é a parte que me cabe do teu inventário.

Não volta, não, que aqui eu não fico. Já apaguei as luzes do teu palco e me guardo no canto que ninguém vê. Eu decoro os textos que tu não vai ouvir, porque minha voz nunca te toca. Eu guardo os beijos que seriam teus, porque estes ninguém te rouba.

Mas não volta, não, se é pra enganar meu peito com teu o desassossego como se fosse o Pessoa. Não toca mais teu rock, que a minha vida agora é toda um blues.

02/10/08

Prá você.

Não procuro o teu beijo em outras bocas, nem tua voz em outras músicas. Porque é o teu gosto que a minha língua adora e é a tua música que me tira do escuro.

Não quero nas minhas outras mãos que não as tuas. Nem dormir em outro abraço, que outro laço não me protege.

Não me afasto das tuas trilhas, que qualquer outro caminho será vazio dos teus lábios e todos os trincos estarão fechados.

Não fecho as páginas do meu livro, que na tua história ainda não chegou o meu fim.