J. Prado

Foi poético: o sol iluminando a tarde, o vento despenteando os cabelos, uma música indiana beijando os ares, os passos no cortejo branco que acompanha o fim.

Uns poucos choravam. Quase todos, porém, miravam o chão contando as pedras, perdidos cada qual em seus pensamentos. Eu só conseguia pensar que aquilo tinha uma beleza inominada, e até imprópria.

Nas minhas lembranças ela era daquelas pessoas que já nascem velhas, mas que não mudam nunca a expressão fresca dos dias jovens. Ela tingia os cabelos compridos de preto e andava sempre de saias compridas – que é pra propagar a fé no deus inquisidor do pentateuco. Eu quis lembrar de mais alguma coisa, mas não há mais nada que lembrar.

As outras histórias que eu sei me foram contadas e já vieram contaminadas dos rancores alheios. Não são memórias minhas e, então, eu as deixo de lado.  Me basta lembrar que o cabelo era tingido, que as saias não eram sinceras e que no peito daquele homenzinho triste de olhos azuis só havia espaço pra ela.

O homenzinho triste de olhos azuis viveu até ali o seu calvário romântico, carregou nos ombros 40 e tantos anos de tristeza conjugal, bebeu com a cachaça o amargo das traições, dormiu e acordou com as idas e vindas, cedeu, concedeu, perdoou.

Mas quando ela fechou os olhos, a agonia desesperada do amor único e impossível deu também seu último suspiro. Ele foi fiel ao que sentia, fez pra ela tudo o que podia. Ele amou como devia amar, ela machucou como não se deve fazer. 

E ali, caminhando ao lado do meu tio triste de olhos azuis, eu percebi que não havia nele nada além da tristeza pura dos que sabem que fizeram tudo. Ele não estava vencido, não carregava mágoa no peito e nem trazia consigo o desespero. 

O amor tinha dado um sopro de alívio, como se fosse o vento daquela tarde. 

Foi poético, triste e belo.

 

15/10/1948  *  17/11/2008

Eu ando a quebrar uns copos cheios de raiva

me desfaço dos sonhos impróprios

e dos amores que não amam a nada

 

Eu ando a gritar um tanto demasiado

me fazendo surda para certas vozes,

eu fujo das luzes do teu caminho.