A maçã e a serpente

Decidiu que não importava. Não ligava para os pedidos de deculpas e para a cara mal lavada do infeliz com quem dormia. Que, embora ainda sentisse amor e raiva, nada faria com que sua conduta mudasse. Iria embora, não mais voltaria, que voltar é para os fracos e desconsolados.

Depois, já quase em meio ao nada, achou que seria humano uma segunda chance. Voltaria. Perdoaria. Guardaria as mágoas numa sacola preta no fundo falso do armário das memórias. Recalcularia planos e sonhos. Dividiria as expectativas em prestações mais suaves desta vez.

Voltou, e viu já do portão umas flores novas e mais coloridas pela sala, sentiu um cheiro suave e doce que de bom entorpecia os sentidos cambaleantes de mulher que sonha. Vai ver ele pressentiu a volta. Arrependido quis pintar de cores boas a casa que guardava tanta neblina.

Entrando, ouviu na vitrola o disco reconciliação de todas as brigas. Mas ouviu também ao fundo uns gemidos de mulher trepadeira. Pela porta entreaberta do quarto, viu que ele nela já não pensava. Que fundia-se em outra com uma fúria apaixonada, dela desconhecida.

Com lágrimas nos olhos, picou com uma faca qualquer da cozinha, aquele corpo que carregava o coração que era dela, enquanto na vitrola o refrão gemia:

Mas quando você me abraça,

Tudo passa tão de repente.

Nesse caso, você é a mação, eu sou a serpente.

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