Calina

Nunca mostrava os braços, o pescoço, as pernas. Jamais a vi usar outra coisa que não fosse a combinação saia até os pés e camisa fechada da gola aos punhos.

Na sexta-feira, quando o sol se punha, trancava-se no quartinho dos fundos – onde fizera o mundo nos últimos meses (seriam anos?) – e entoava louvores ao seu deus. Amava esse deus, como talvez nunca tenha amado mais ninguém.

O amor de deus, porém, não lhe tirava a rudeza da face, o sofrimento marcado nas linhas que circulavam o rosto e desciam como o curso de um rio pelas bochechas, dos sulcos que emolduravam a boca. O amor não lhe poupou do hospital, da cama, da miséria, da falta de tudo.

O amor de deus não a fez feliz. Era uma pessoa com as fraturas sempre expostas, congelada de mágoas.

Sinto falta dos olhos – tristes, sempre tristes em seu azul-claro –, sinto falta das histórias que não ouvi ela contar. Porque não deu tempo, porque eu não quis, porque eu não entendia. Sinto falta das mãos calejadas, das discussões que poderiam ter sido, das opiniões que me seriam contrárias.

Sinto falta de tudo o que era. Mas sinto muito mais por tudo o que não foi.