A felicidade de R$ 2,90

Uma mensagem brilhou na minha caixa de entrada. “Você quer dois motivos para ficar feliz?”.

Abri, pensando que talvez se tratasse da cura do câncer. Podia ser até menos; podia tratar-se da redução das tarifas do transporte público e o término das obras da Copa. Eu me contentaria se fosse uma mensagem de bom dia de um amigo distante, dizendo que sente saudade e que logo chega pra botar a conversa em dia.

Mas era tão-somente o submarino a me oferecer uma fritadeira elétrica e um pen-drive, cada um por R$ 2,90.

Aí preciso parar e escrever porque usando a linguagem do pensamento abstrato apenas não consigo entender que mundo é esse que oferece que oferece a felicidade em forma de fritadeira. Nunca me ocorreu que a felicidade passasse por um artigo dessa ordem. 

Os que não têm poesia dirão: a felicidade está no preço. Eu digo que no preço está armadilha! A felicidade é tão mal interpretada, coitada, que quaisquer 3 reais resolvem a coisa toda. Não importa quanto, nem o quê: importante é ter.

Seu sucesso na vida se mede pelas coisas que você tem. Não tem um carrão do ano? Não mora em um belo apê? Não viaja para Bariloche? Passa suas férias em casa cuidando das plantas? Fracassado! Não importa se para ter tudo isso, você precise morrer num emprego que você não suporta. Não importa se você não é feliz, de fato. O importante é parecer.

O importante, minha gente, é que felicidade cabe num pen-drive de R$ 2,90.

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Senhor Raposa

– Enxuga estas lágrimas e põe-te em pé. Só os perdedores continuam no chão chorando! –, disse a raposa.

Levantei-me sem nem sequer pensar por que diabos uma raposa estava falando comigo. Mais: por que diabos é que uma raposa estava enfim falando. Às vezes, os absurdos do dia consistem apenas em não pensar nos absurdos.

Achei prudente perguntar à raposa, que parecia um daqueles seres inabaláveis com respostas para todos os problemas do mundo – a raposa era mesmo quase como o próprio Jesus Cristo, embora mais peludo –, o que fazer então da minha vida, já que por mais que tivesse levantado, meus joelhos doíam e sangravam.

– Pra onde devo ir, Dona Raposa? Até onde posso chegar com estes joelhos tão comidos pelas pedras?

– És mesmo uma besta, não? Sou raposa sim, mas não sou dona, não! Sou o Senhor Raposa! E não importa pra onde é que você vai, paspalho! Apenas comece a ir. Quando chegar, você vai saber que chegou.

Achei essa história toda um tanto enigmática demais e comecei a pensar que de Jesus Cristo aquele bicho não tinha nada. Cadê a compaixão pelos meus ferimentos? Mas confesso que o fato de ela ser ele, o Senhor Raposo, me deixou um pouco confuso. Ele tinha rímel nos olhos e os lábios traziam glitter, sim senhor.

– Obrigada, Senhor Raposa. Quando chegar, eu mando um telegrama, um SMS, um e-mail.

– Me mande apenas 100 reais, que estamos conversados.

No fim, a raposa tinha a ver sim com Jesus Cristo.

Verdade, uma ilusão

A verdade é que não há no mundo quem suporte a verdade.

Enquanto escrevo estas linhas cheias de mágoa, metade da população está contando mentiras. A outra metade está mentido que acredita nelas.

Ser verdadeiro é um defeito moral. Quem diz o que pensa acaba sempre andando sozinho.

A verdade é um exercício solitário, uma chaga exposta na pele.

– Não chegue perto dele, se não quiser se machucar. Vai acabar te atirando verdades na cara. –, diz o bom cristão.

E eu sigo só com as minhas verdades. Eu não sou mesmo de companhia.