A sensação de não pertencimento é sempre constante, me acompanha como um cão sarnento e faminto, não me deixa, como se fosse minha própria sombra.

Talvez isso seja apenas o resultado de uma vida de exclusões. Não me coloco como vítima ao me afirmar excluída, apenas constato um fato: quando dizem demais e em todo lugar que você não devia estar ali, a única coisa que resta é acreditar-se sempre fora de lugar.

Na escola, a menina estranha, pobre, gorda, parda e periférica aprendeu a andar sozinha na hora do recreio, a engolir sem revidar as provocações, a não ter com quem fazer trabalhos, a não ser escolhida para os times, a ouvir a piadas sobre o peso, a feiura, a pobreza.

Acho que desde sempre sabia que não encontraria apoio, abrigo, entendimento. Desde sempre intuí que a vida era mesmo por minha conta. E assim, uma hora você cria uma casca, uma capa, uma máscara. Eu não levo desaforo pra casa, eu ataco antes, eu não engulo sem antes cuspir de volta as misérias que a vida traz.  Mas isso não resolve o senso de ser sozinho.

Veja, não me digo sozinha no sentido de não ter pessoas por perto. Ao contrário, nunca falta com quem virar uns copos de cerveja. Acontece que as pessoas me dão nojo. Não consigo deixar de notar o machismo, o racismo, a hipocrisia em seus discursos, sempre tão impregnados de senso comum. É todo mundo sempre tão superficial.

E todos vencedores. E todos reis. Não há ninguém como eu que tenha se sentido verme pelo menos uma única vez na vida. Não há quem tenha lido Fernando Pessoa. Ou há os que leram sem o terem entendido, sentido.

A vida, na verdade, me aterroriza. Se eu fosse de verdade, não levantaria da cama. Desde o sorriso de bom-dia para o porteiro do prédio até as conversas de brodagem com as pessoas do trabalho, é tudo mentira. Não ligo pra nenhuma dessas pessoas, todas príncipes, todas vencedoras financiando suas viagens de férias pra Miami.

É todo mundo de mentira, no fim.

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