Verdade, uma ilusão

A verdade é que não há no mundo quem suporte a verdade.

Enquanto escrevo estas linhas cheias de mágoa, metade da população está contando mentiras. A outra metade está mentido que acredita nelas.

Ser verdadeiro é um defeito moral. Quem diz o que pensa acaba sempre andando sozinho.

A verdade é um exercício solitário, uma chaga exposta na pele.

– Não chegue perto dele, se não quiser se machucar. Vai acabar te atirando verdades na cara. –, diz o bom cristão.

E eu sigo só com as minhas verdades. Eu não sou mesmo de companhia.

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Calina

Nunca mostrava os braços, o pescoço, as pernas. Jamais a vi usar outra coisa que não fosse a combinação saia até os pés e camisa fechada da gola aos punhos.

Na sexta-feira, quando o sol se punha, trancava-se no quartinho dos fundos – onde fizera o mundo nos últimos meses (seriam anos?) – e entoava louvores ao seu deus. Amava esse deus, como talvez nunca tenha amado mais ninguém.

O amor de deus, porém, não lhe tirava a rudeza da face, o sofrimento marcado nas linhas que circulavam o rosto e desciam como o curso de um rio pelas bochechas, dos sulcos que emolduravam a boca. O amor não lhe poupou do hospital, da cama, da miséria, da falta de tudo.

O amor de deus não a fez feliz. Era uma pessoa com as fraturas sempre expostas, congelada de mágoas.

Sinto falta dos olhos – tristes, sempre tristes em seu azul-claro –, sinto falta das histórias que não ouvi ela contar. Porque não deu tempo, porque eu não quis, porque eu não entendia. Sinto falta das mãos calejadas, das discussões que poderiam ter sido, das opiniões que me seriam contrárias.

Sinto falta de tudo o que era. Mas sinto muito mais por tudo o que não foi.

La niña del aire

La niña del aire jamais se explica, e quando o faz é somente para mostrar que a coisa anda feia e que a paciência já está a ultrapassar qualquer limite.
La niña del aire canta enquanto caminha e sorri pras coisas simples da vida. Ela sabe ser leve e me ensina a ser menos também.
La niña del aire não se importa com a mesquinhez do mundo. Ela se basta em sua felicidade plena de ser e ela me ensina a olhar pra beleza do que eu sou também.
La niña del aire me faz feliz porque ela é feliz antes.

Só quero

Sou muito mais do inverno que do verão.
É que o amor começa sempre no inverno. Foi no inverno que te vi chegar naquele café e eu, sem jeito e sem saber de fato o que fazer, fui me aconchegando já dentro do teu peito, que os olhos verdes tinham de longe me arrebato ao infinito dos apaixonados.
Eu fui canalha, eu fui prepotente e esquisita, pra te conquistar. Eu joguei meu ego às alturas pra fingir uma confiança inexistente. Eu era só uma menina a mais que você conhecia nessa cidade, mas seria, enfim, a última.
E no inverno dos dias de Julho, os sinos toacaram, então, naquela tarde de domingo. Você de cabelo preso e jaqueta xadrez, deslizando o all star até chegar à porta; meu coração não resistia, naminha cabeça uma voz explodia: “é ela, é ela!”.
Agora, eu só penso em achar um jeito de arranjar um canto, um micro-ondas e uma TV, que é pra esse nosso amor imenso ter onde morar. Um canto em que eu possa te ver acordar todas as manhãs, em que sejam os teus braços a me embalar as noites.
Eu só quero me casar com você.